Review: A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo Livro Um

O gênero fantasia na literatura americana é imenso, hoje em dia, chega a ser maior até que eternos donos do mercado como auto-ajuda ou folhetins para mulheres. Tanto que são lançados centenas de novos títulos todos os anos, isso sem contar obras de horror ou ficção científica. E pensar que, em 1995, quando A Guerra dos Tronos foi originalmente publicado, o cenário era muito diferente.

Naquela época o sucesso pertencia aos livros de mistério e romances históricos. Os poucos que aventuravam-se nos vales verdejantes onde os dragões voam, ou eram engolidos pelo mercado e esquecidos, ou apoiados por uma legião de fãs e uma editora poderosa como foi o caso de R.A. Salvatore e seus romances ambientados em Forgotten Realms (que serve de cenário para o RPG de mesa Dungeons & Dragons da Wizards of the Coast). E era basicamente a isso que a fantasia limitava-se, jogadores de RPG e os hippies remanescentes fãs de Tolkien. Nesse mesmo período o terror estava praticamente esquecido e a ficção científica vinha estagnando-se, o terreno não era favorável a nenhum autor que tivesse influências de qualquer um desses meios.

Para nossa sorte, George R.R. Martin já tinha um bom currículo. Ele ficara desempregado anos antes quando trabalhava como roteirista de TV e pouco conseguia quando tentava retornar ao mercado sob a alegação de que seus projetos eram muito custosos para a época. Graças a isso, ele decidiu transformar uma dessas idéias em um romance, mídia pela qual ele já vinha se aventurando há algum tempo.

A Guerra dos Tronos teve um relativo sucesso na época, a ponto de ganhar continuações. Mas a obra cresceu mesmo quando pegou carona no boom da fantasia trazido pelas adaptações cinematográficas de O Senhor dos Anéis. Mas, ainda assim, As Crônicas de Gelo e Fogo só pertenciam a esse nicho específico, tanto que nenhuma editora brasileira tinha interessado-se em publicar os livros por aqui. Ninguém sabe ao certo o por quê; mas, com a série trazida a nós pela HBO, os interesses pela saga de Martin aqueceram-se como nunca antes e isso, junto de um empurrãozinho do escritor Raphael Draccon, convenceu a recém-chegada LeYa a apostar na obra.

O livro passa-se em Westeros, um continente onde só há duas estações — verão e inverno — e nenhuma delas têm uma duração fixa e, quanto maior o verão, maior o inverno seguinte será. A chegada do inverno após um verão de nove anos é a grande força motriz sobre a atitude do principal núcleo de personagens.

Aqui temos um elenco imenso para ser apresentado, mas tudo se inicia quando o rei Robert Baratheon perde Jon Arryn, a Mão do Rei (algo como um primeiro-ministro com poder reduzido), e decide tornar Eddard Stark — um amigo de infância — a nova Mão. Mas Ned não está muito confortável com esse cargo e muito menos com as condições nas quais o seu predecessor morreu. Daí somos introduzidos ao continente e sua história, suas famílias importantes e lendas mais populares. Tudo é muito orgânico, em nenhum momento a explicação parece fora de lugar e a cada nova pitada de detalhes, você fica ávido por mais.

A verdade é que o livro demora um pouco para finalmente avançar, ao menos duzentas páginas onde somos apresentados a esse elenco, suas histórias, personalidades, motivações. A partir do momento em que tudo isso é estabelecido e a importância que cada um deles terá no plot definida, Martin engata a quinta marcha e te apresenta uma história cheia de meandros, intrigas, ótimas passagens e um ritmo tão contagiante que, se não houvesse a separação dos capítulos, você teria dificuldades em conseguir parar de ler. Eu mesmo devorei as trezentas e noventa páginas restantes em um fim de semana. Isso na quarta vez que lia o livro (já tinha lido em inglês anos atrás).

Mas já aviso, A Guerra dos Tronos é uma obra de fantasia diferente da qual você provavelmente está acostumado. Temos reinos, cavaleiros, honra, deuses antigos, novas religiões, ordens, seres fantásticos que ha muito estão desaparecidos e toda uma aura de magia paira em leves quantidades por todo o ambiente. Mas não é nada explícito como normalmente os livros do gênero são. Não temos elfos, nem anões, nem gigantes, dragões, hobbits, gárgulas ou o que quer que o valha. Podem ter existido em algum momento do passado, mas hoje Westeros é tomada pelos humanos. É como se Bernard Cornwell tivesse decidido reescrever O Senhor dos Anéis. Outra coisa que muitos vão estranhar é a falta de um protagonista. O livro tem uma dezena de personagens igualmente importantes para a história, alguns acabam aparecendo mais que outros, mas o enredo não depende deles para continuar. O foco fica em Ned Stark porque ele funciona como uma figura narrativa, é ele que faz o plot andar, mas a história não depende dele para prosseguir. Talvez, Jon Snow e Daenerys Targaryen sejam até mesmo mais protagonistas da Canção de Gelo e Fogo que o senhor de Winterfell. Mas, ao menos nesse primeiro livro, o personagem principal é o Trono de Ferro pelo qual todos maquinam suas intrigar e jogos de poder.

O grande talento de Martin é que mesmo em uma história com vários protagonistas, subplots e tramas paralelas, ele consegue manuseá-los muito bem. Cada capítulo é narrado sob o ponto de vista de um de sete personagens importantes para a trama e isso é feito de forma intercalada e seriada, dando uma sensação de progresso muito agradável e aumentando a angústia do leitor em saber o que acontece a seguir com seu personagem favorito. Criar laços entre os leitores e os personagens é outra das qualidades do escritor. Você invariavelmente vai acabar criando uma empatia tão forte por alguém que se envolverá com ele e o que lhe acontece. Mas, diferente de nós, George R.R. Martin não tem pena de seus personagens.

Outro ponto a favor da obra e que a difere do que costumamos ver na fantasia é a quase inexistência de figuras maniqueístas. Quase ninguém ali é bom ou mau somente, todos têm seus motivos pra fazerem o que fazem e podem muito bem ter demonstrações de amor ou ódio excessivo quando o momento exige. Mas vejam bem, eu disse quase. Ned Stark é praticamente um paladino seguindo sua dita honra e tentando pregá-la por onde quer que passe, tornando o personagem tanto irritante quanto estúpido em muitas ocasiões. Enquanto isso, Viserys é o símbolo do vilão, pena ser um antagonista tão impotente perante sua irmã, tem todos os trejeitos, ambições e idéias de um lorde maligno típico.

E já que estamos falando dos poréns, essa coisa de que relacionamentos incestuosos geram crianças normais e saudáveis é incômodo e atrapalhou um pouco minha aceitação do Logos do cenário. Os Targaryen casam-se entre irmãos desde que tomaram o trono para manter o sangue puro? São pelo menos sete gerações de crianças que já deveriam ter nascido retardadas (tá, o Viserys é bem retardado) e mesmo assim nasciam normais em grande parte das vezes! Junte a isso a tradução feita em português europeu e sem adaptação para o Brasil que pode causar um estranhamento inicial e temos os maiores defeitos do livro.

Quanto ao projeto editorial, não tenho muito o que dizer, basta olhar a arte da capa ou tocá-lo em alguma livraria. É tudo de muito bom gosto e feito com bastante esmero, sendo muito mais bonito que o pocket book americano. Mas pecando um pouco pela opção de usar um formato maior que o normal, acaba tornando A Guerra dos Tronos um livro feito quase que exclusivamente para ser lido em casa. Impressão torta ou apagada e rebarbas de cola na edição que recebemos da LeYa foram constatadas, mas isso é puro erro de gráfica, não podemos culpar a editora por isso.

A Guerra dos Tronos é um livro impecável, tem o direito de ser considerado por muitos a obra mais importante de fantasia no último século. Mesmo a tradução em português europeu passa quase despercebida tamanha a qualidade da obra. Para alguns o livro pode incomodar porque esperam a alta fantasia com a qual estão acostumados mas vêem um clima de intriga política imenso. Enquanto outros vão se apaixonar pela intriga, mas torcerão o nariz para os tons de fantasia no começo e no fim do livro.

Apesar do tamanho intimidador, Guerra dos Tronos é exatamente o tipo de livro que, se não tomar cuidado, você vai acabar devorando inteiro em uma semana.

A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo Livro Um
Tradução: Jorge Candeias
592 páginas
24 x 17 cm
R$ 49,90
Leia o prólogo e os dois primeiros capítulos

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  • Pingback: Anônimo

  • http://www.griebeler.com Bruna Griebeler

    Excelente livro. No início é um pouco parado mas da metade para o fim fica difícil parar de ler.

  • @LipeML

    Queria deixar um adendo. Você falou que é como se fosse Cornwell reescrevendo O Senhor dos Anéis. É extamente isso, MENOS as partes das lutas. Só li o primeiro, não sei como são nos próximos, mas você vai concordar comigo que Cornwell descreve as batalhas de uma maneira sensacional.
    A edição era em português europeu? Juro que nem reparei.
    Temos que lembrar também que não saem filhos “deformados”, né? O que acontece é que assim fica mais fácil de serem passadas características recessivas pra prole. Acredito que a família Targaryen pode ter uma “doença” genética, por exemplo, esquizofrenia (o que parece bem provável, devido a Aerys). Viserys é meio maluquete também.
    A única coisa que sinto falta nesse primeiro livro são cenas de batalhas mais descritas. Mas enfim, já tô louco pra ver o próximo.

  • http://ideiasnoar.wordpress.com/ Marco Rigobelli

    Spoiler: nos livros seguintes é ainda pior. Ele ignora completamente as batalhas.

  • http://robliefeldomaioral.wordpress.com Marília N.

    Eu também nem reparei que era português europeu, mas acho que no Fúria dos Reis já é adaptado. E a fonte miudinha e o tamanho do livro atrapalham um pouco mesmo, mas é até bom já que assim eu evito levar o livro pra todos os lugares.

  • @tifalmeida

    Cheguei a ver alguns comentários do tipo “é uma novelinha disfarçada…”, “mulherada que gosta de intriguinha..” e a frase
    “Para alguns o livro pode incomodar porque esperam a alta fantasia com a qual estão acostumados mas vêem um clima de intriga política imenso.”
    parece confirmar minhas suspeitas, confere?

    E o comentário sobre a falta de batalhas and such também desanima a ler hein :\

    Só confirmando pque afinal, 600 páginas e mais é um investimento considerável ahahah

  • http://ideiasnoar.wordpress.com/ Marco Rigobelli

    @tifalmeida

    Não é uma novelinha, se precisasse dar um gênero a mais pra ele, diria que é um “romance político”. Não são intrigas simples, são jogos de poder, traições, golpes de estado, entre outras coisas.

    Lutas têm aos montes, principalmente no núcleo dos Targaryen. O que falta, e o que o escritor parece ter medo de tentar são batalhas de tropas. Ele descreve as estratégias, os soldados indo para a batalha, o clima fora da batalha, mas não descreve ela propriamente dita. Mas ele compensa com pornografia. Hahahahaha

    O livro vale a pena, mesmo. Aconselho com todas as forças que compre.

  • bperuchi

    Só faltou falar que o primeiro livro é o mais tranquilo da série. Nos outros o samba do criou doido come desembolado e é praticamente impossível largar os livros.

  • nathalinha

    to doida pra ler esse livro ,vou começar a ler já.

  • nathalinha

    quantos livros fazem parte da série?

  • gonca

    vcs sabem se existe algum corte na versao portugues ou a diferença de páginas se da pelo tamnho de fonte, margem e etc? a versao em ingles tem quase 900 páginas enquanto a versao portugues só tem 600

  • http://ideiasnoar.wordpress.com/ Marco Rigobelli

    A edição nacional tem duas vezes o tamanho do pocket book, por isso a diferença de páginas.

  • Leandro

    São 7 livros, dois lançados em portugues, o proximo em setembro…

    Marco Rigobelli, é natural que não tenha tantas batalhas de tropa no primeiro livro, afinal eram tempos de paz, e as poucas batalhas que acontecem, são feitas as pressas, por vingança… gostei muito do primeiro, o segundo estou lendo, magnifico pra mim…

  • penny Lane

    A série de livros assusta pelo tamanho, mas para quem gosta de ler isso é só um aperitivo. E a leitura não é “fantasia pra mulherzinha”, vale a pena encarar. Eu já li os tres publicados no Brasil e aguardo os outros com ansiedade. E devo confessar que graças a Deus não existem muitas descrições sobre as batalhas em sí, pois as maquinações que permitem que elas aconteçam já nos tomam boa parte da leitura.

  • Thiago Claro

    Quando os gregos conquistaram o egito, foram varias gerações de casamentos entre irmãos para manter o trono “puro”.
    Cleópatra foi a última, e não parecia nada “retardada” como você diz.

  • Jackson

    Quando se ler os otros livros é que vc nao quer parar msm de ler. Já li os 3 primeiors e estou esperando o 4 chegar por encomenda que fiz. Quando se chega no 3 ´livro e vc ver q já tem domínio, é aí q vc se engana; os personagens ficam cada vez mais ousados. Magnífico! Recomendo. Leia e não terá arrependimentos.

  • http://riodejaneijo herikabc

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